O tema das relações raciais é uma das questões-chave para se entender a constituição das ciências sociais no Brasil. As obras de autores tão diversos como Gilberto Freyre, Florestan Fernandes, Thales de Azevedo, Guerreiro Ramos, Oracy Nogueira, Costa Pinto, Ruth Landes, Edison Carneiro, Roberto DaMatta, Roberto Cardoso de Oliveira, Fernando Henrique Cardoso, Otávio Ianni, Carlos Hasenbalg, Lélia Gonzales, dentre outros, mostram o peso que essa discussão teve para as várias narrativas sobre a história e o processo de formação do país. Pensar a questão racial era, pois, para os pioneiros das ciências sociais, um modo de procurar compreender o que era o Brasil, como ele se tornara o que se tornou e sua viabilidade como nação.

A centralidade disso nunca foi tão visível como nas últimas décadas. A polêmica sobre as ações afirmativas no início dos anos 2000, as políticas públicas de combate ao racismo na educação, na área fundiária, nos empregos públicos, na política indigenista etc. foram momentos importantes para essa discussão. Na atualidade, as denúncias sobre a violência policial contra a população negra, a política de contestação dos direitos à terra de grupos tradicionais (quilombolas, indígenas, etc.), a falta de medidas para impedir o avanço da pandemia entre a população indígena, ou as controvérsias sobre quem tem direito a usar certos símbolos ou falar sobre determinados tópicos raciais mostram o quanto esse debate ganhou relevância na agenda pública e se tornou uma questão sensível, capaz de provocar sofrimento, indignação, estereotipização e/ou resistências.

Todas essas mudanças sobre a compreensão das questões étnico-raciais exigem que exercitemos mais do que nunca a imaginação sociológica da qual nos falava C. Wrigth Mills. Esse desafio que nos interpela de forma visceral enquanto pesquisadores individuais, tem um peso ainda maior para associações científicas como a ANPOCS, que congrega uma gama muito variada de programas de pesquisa e de pós-graduação e que tem um longo histórico de lutas democráticas e anti-racistas.

Nesse sentido, a proposta de criação de um comitê de assessoramento capaz de contribuir com ações que visem dar visibilidade e relevo às discussões sobre racismo, anti-racismo e interseccionalidade no seio da ANPOCS é mais do que oportuna. Isso não poderia deixar de ser um momento em que a Associação reafirma o seu compromisso contra todas as formas de discriminações e preconceitos que atingem populações que são historicamente marcadas por estigmas étnico-raciais entre nós (negros, indígenas, quilombolas, etc.), como também uma oportunidade para fazer emergir no meio acadêmico temas em ebulição no seio da sociedade.

Composta por pesquisadores das diferentes áreas das ciências sociais, em momentos diversos de suas carreiras e trajetórias, além de oriundos de diferentes regiões do país, espera-se que essa comisssão posssa auxiliar a direção da ANPOCS a pensar os meios para dar respostas adequadas a todos esses dilemas.

Composição do Comitê:

Angela Lucia Silva Figueiredo (UFRB)
Antônio Sérgio Guimarães (USP)
Gersem José dos Santos Luciano (Gersem Baniwa) (UFAM)
Luiz Augusto Campos (IESP-UERJ)
Maria Nilza da Silva (UEL)
Viviane Gonçalves Freitas (UFMG)