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Boletim Especial n. 10 - 26/10/2020



No Boletim n. 10, Sandra Suely Moreira Lurine Guimarães (Faculdade Faci Wyden) e Loiane Prado Verbicaro (UFPA) combatem o truísmo em torno da falsa constatação de impactos democráticos da pandemia, que na verdade afeta diferencialmente os distintos grupos demográficos no país. Com ênfase na esfera do trabalho, emprego e oportunidades, o texto dialoga com dados e levantamentos sobre o espaço de mulheres negras em empresas e posições de liderança. As inseguranças relatadas por mulheres negras quanto a acesso a recursos para subsistência pessoal e cuidados de saúde são debatidas de forma interseccional, com incidência na necessidade de políticas públicas bem informadas quanto a raça, classe e gênero.

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Mulheres negras e o mercado de trabalho em tempos de pandemia no Brasil


Por Sandra Suely Moreira Lurine Guimarães e Loiane Prado Verbicaro

Mulheres trabalhando como filetadoras na pedra do peixe, mercado do Ver-o-Peso, Belém, Pará, 16 de setembro de 2020, 05:47 da manhã. Fonte: Acervo pessoal de Juliana Machado.


Em tempos de Pandemia, causada pela COVID-19, tem sido quase um truísmo a afirmação de que o vírus causador da doença “é democrático porque atinge a todos de forma indistinta”. Essa afirmação é apenas parcialmente verdadeira, tendo em vista que se, por um lado, pessoas de todas as classes, raças e gêneros têm sido infectadas, os efeitos que essa pandemia causa na vida desses sujeitos não ocorrem de forma homogênea, em razão das assimetrias que são estruturantes na nossa sociedade. A verdade é que há uma perversa correlação entre epidemias e desigualdades. As classes vulneráveis são as mais afetadas, pois sentem mais diretamente os impactos da disseminação do vírus em razão dos marcadores de opressão e das fissuras e vulnerabilidades socioeconômicas. Nesta perspectiva, o presente trabalho visa expor uma reflexão concernente à situação da mulher negra no mercado de trabalho em tempos de pandemia. Para tal, recorreu-se aos dados da pesquisa intitulada Mulheres negras: saúde financeira e expectativa diante da Covid 19. Esse estudo foi realizado pelo Instituto Identidades Brasil (ID-BR), Comunidade Empodera e Faculdade Zumbi dos Palmares, com o objetivo de apresentar um panorama da situação financeira de mulheres negras no mercado de trabalho no período da pandemia.

Nossa sociedade tem a mácula de um passado escravagista e colonial que, após a abolição da escravidão, negligenciou completamente os povos negros recém-libertos, os quais não foram minimamente contemplados por quaisquer políticas públicas de inclusão social. Nesse sentido, importante destacar a profunda e entranhada desigualdade social como o maior legado da escravatura e do autoritarismo no país. Grassou, no Brasil, do Século XVI ao Século XIX, uma escandalosa injustiça amparada pela artimanha da legalidade. A escravidão foi bem mais do que um sistema econômico: ela moldou condutas, definiu desigualdades sociais, fez da raça e da cor marcadores de opressão e de diferença fundamentais, ordenou etiquetas de mando e obediência, e criou uma sociedade marcada por uma hierarquia social muito estrita. A escravidão nos legou uma sociedade autoritária e iníqua, a qual tratamos de reproduzir, o que legou uma série de problemas à nossa agenda republicana, em prejuízo ao aperfeiçoamento democrático e sua promessa de igualdade (SCHWARCZ, 2019).

Nesta perspectiva, ocorreu uma certa naturalização da condição de subalternização e da desigualdade de direitos das pessoas negras, notadamente da mulher. Vale ressaltar que no início do movimento feminista, enquanto as mulheres brancas lutavam por direito ao voto, ao trabalho e à propriedade, as mulheres negras sequer eram vistas como seres humanos e incluídas nessas reivindicações. Considerando o lugar social ocupado pela mulher negra, a reflexão torna-se intrinsicamente relevante, tendo em vista que mesmo no período de normalidade social, suas vidas já são marcadas pela precarização, notadamente no mundo do trabalho, de modo que raramente ocupam posições de prestígio. Não se pode levar a cabo essa reflexão sem compreender que na sociedade brasileira, a mulher negra passou por longo período de reificação, vista como a mulata sexualizada ou a negra que desempenhava os trabalhos pesados não só na casa grande, mas também nas lavouras. Ocorre que essa realidade não é simplesmente um fato histórico, ou uma reminiscência do passado, mas trata-se de uma mentalidade que permanece presente no imaginário social.

No Brasil, permanece uma espécie de corrosão da identidade da mulher negra, amplamente veiculada na sociedade e utilizada para a manutenção da sua situação de inferioridade de modo que, no mundo do trabalho, há uma certa naturalização de que as funções que lhes são adequadas é a de empregada doméstica ou o desempenho de outras atividades desprovidas de prestígio social. O cenário gerado pela COVID-19 nos provoca a refletir sobre a situação da mulher negra no que concerne à forma como elas estão assegurando sua sustentabilidade econômica, dado que constituem um universo considerável entre as mulheres com trabalhos precarizados e subalternos.

Com o intuito de investigar os efeitos da pandemia na vida das mulheres negras, o Instituto Identidades do Brasil (ID_BR), uma organização que busca dinamizar a promoção racial no mundo do trabalho, realizou um levantamento com mais de 200 mulheres negras em 19 Estados e no Distrito Federal. Entre as respondentes havia mulheres que atuam formalmente em empresas nacionais e multinacionais, classificadas no estudo como profissionais, assim como mulheres empreendedoras. O objetivo da pesquisa era verificar como elas estão enfrentando o atual momento de crise em razão da COVID-19. Os dados do levantamento apontam que as profissionais atuam em sua maioria em cargos do baixo escalão, e dentre elas 76,4% afirmaram que seu maior receio na pandemia é a perda do emprego.

O estudo aponta que, entre as mulheres profissionais, apenas 13,2% temem por sua saúde, o que revela que a maior preocupação é com a subsistência pessoal, do que propriamente com a saúde, pelas razões expostas. De outro modo, 72% das respondentes se encaixam no perfil de empreendedoras. Entretanto, “empreender” não é necessariamente uma opção para essas mulheres, mas geralmente a única via para a subsistência em virtude de não conseguir um emprego. Isso fica particularmente claro quando se constata que 79,4% delas não dispõem de reserva financeira, tampouco de um plano de negócio ou planejamento que pudesse garantir sustentabilidade econômica em tempos de pandemia.

Diante do exposto, é cabal a necessidade de elaboração de políticas públicas que ponham a interseccionalidade como metodologia para a concretização de políticas eficazes e que levem em conta a incidência de vários eixos de subordinação sobre os corpos de mulheres negras, tais como raça, classe e gênero. Qualquer medida, pública ou privada, que não considere essa perversa realidade, está fadada ao insucesso. A verdade é que eles têm raízes históricas fincadas em uma sociedade com profunda desigualdade social, de modo que é urgente a eficiência na distribuição de recursos e créditos. É preciso também considerar que no momento em que a presença da mulher negra em espaços de poder e visibilidade não for uma exceção, teremos bases sólidas de uma sociedade que promove e constrói identidades diversificadas, assim como fomenta representações indispensáveis a qualquer sociedade que se pretenda democrática, justa e plural.

Sandra Suely Moreira Lurine Guimarães é Doutora em Ciências Sociais. Professora da Faculdade Faci Wyden. Pesquisadora do Grupo de Pesquisa (CNPq): Filosofia Prática: Investigações em Política, Ética e Direito. sandralurine@yahoo.com.br.

Loiane Prado Verbicaro é Doutora em Filosofia do Direito. Professora da Faculdade de Filosofia e do Programa de Mestrado em Filosofia da Universidade Federal do Pará (UFPA). Líder do Grupo de Pesquisa (CNPq): Filosofia Prática: Investigações em Política, Ética e Direito. loianeverbicaro@uol.com.br.

Referências:

DAVIS, Angela. A liberdade é uma luta constante. São Paulo: Boitempo, 2018

hooks, bell. Teoria Feminista negra: da margem ao centro. São Paulo: Perspectiva, 2019

hooks, bell. E eu não sou uma mulher?: mulheres negras e feminismo. Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos, 2019

RIBEIRO, Djamila. Pequeno manual antirracista. São Paulo: Companhia das letras, 2019.

SCHWARCZ, Lilia. Sobre o autoritarismo brasileiro. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.

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Este texto é parte de uma série de boletins sequenciais sobre a questão étnico-racial em tempos de crise que está sendo publicada ao longo das próximas semanas. Trata-se de uma ação conjunta que reúne a Associação Nacional de Pós-Graduação em Ciências Sociais (ANPOCS), a Sociedade Brasileira de Sociologia (SBS), a Associação Brasileira de Antropologia (ABA), a Associação Brasileira de Ciência Política (ABCP) e a Associação dos Cientistas Sociais da Religião do Mercosul (ACSRM). Nos canais oficiais dessas associações estamos circulando textos curtos, que apresentam trabalhos que refletiram sobre epidemias. Esse é um esforço para continuar dando visibilidade ao que produzimos e também de afirmar a relevância dessas ciências para o enfrentamento da crise que estamos atravessando.

A publicação deste boletim também conta com o apoio da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC/SC), da Associação Nacional de Pós-Graduação em Geografia (ANPEGE), da Associação Nacional de Pós-Graduação em História (ANPUH), da Associação Nacional de Pós graduação e Pesquisa em Letras e Linguística (Anpoll) e da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Planejamento Urbano e Regional (Anpur).

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