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Boletim Especial n. 17 - 18/11/2020



No Boletim 17, Felipe Bellido Quarti Cruz (PUC-Rio), coordenador de uma unidade da Educafro Rio, compartilha as dificuldades vivenciadas no cotidiano de um cursinho pré-vestibular comunitário, em decorrência da pandemia da Covid-19. O autor questiona a ausência de protocolos para o campo educacional neste momento de pandemia e apresenta dados de uma pesquisa feita com os alunos de sua unidade que o fazem concluir que o marco da pandemia é o acirramento das desigualdades sociais.

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O efeito da covid-19 na educação popular: uma análise sobre os seus efeitos em um núcleo da Educafro Rio


Por Felipe Bellido Quarti Cruz

Foto: Comemoração de um ano do núcleo Lélia Gonzalez e Marielle Franco em 6 de setembro de 2019. Arquivo pessoal do autor. Disponível em:  <https://www.facebook.com/NucleoEducafroIlha/photos/430507127809635>. Acesso em: 11/11/2020.


Este boletim tem como objetivo analisar os efeitos da pandemia de covid-19 na educação popular, sobretudo, no cotidiano de um Pré-Vestibular para Negros e Carentes (doravante, PVNC) da Educafro[1] Rio. O objeto da análise proposta será o Núcleo Lélia Gonzalez e Marielle Franco, o pré-vestibular está situado em uma igreja localizada na Ilha do Governador, zona norte do Rio de Janeiro.

As consequências da covid-19 no núcleo Lélia Gonzalez e Marielle Franco

Em 2020, iniciamos o ano letivo com 45 alunos inscritos. Destes inscritos, 25 foram selecionados para assistir as aulas presenciais. Estamos alocados em uma igreja e devido à limitação do espaço físico, decidimos atender apenas aos 25 estudantes. Para realizar a seleção, foram adotados três critérios: raça/cor (autodeclaração); renda (autodeclaração) e a nota na prova de cidadania.

As aulas presenciais duraram dez dias e com o início da pandemia da Covid-19, após decreto do governador em exercício, as aulas foram suspensas. Em conversa com professores e alunos, foi resolvido que as aulas continuariam em formato remoto. Para tanto, foram utilizados diversos recursos tecnológicos. Também foi disponibilizado o aplicativo descomplica[2], que permitiu que os alunos acessassem por meio do celular ou de outros dispositivos eletrônicos o conteúdo de estudo para o vestibular, de forma gratuita. 

Neste primeiro momento, notamos que tanto os professores como os alunos não tinham se adaptado a essas novas plataformas e à didática das aulas remotas. A frequência teve uma diminuição drástica, e para tentar solucionar essa questão, houve uma reunião entre a coordenação e os professores. Nesta reunião, discutimos qual seria o protocolo pedagógico a ser adotado.

Falo em protocolo pedagógico porque muito se discute sobre o protocolo sanitário no período da Covid-19, mas pouco ou nada se falava dos métodos de ensino em uma pandemia, seja na esfera pública, em geral, seja no âmbito institucional (MEC e secretarias de educação, por exemplo). Nesta reunião, foi decidido que as aulas teriam uma duração menor e seriam apenas em três dias da semana, aumentando progressivamente.

Esse método teve melhor aproveitamento tanto dos professores, como dos alunos. A presença e o comprometimento aumentaram e, agora, as aulas já ocupam quatro dias da semana. Este resultado foi construído pelas reuniões entre coordenação, professores e alunos e a partir dos dados retirados de um questionário aplicado aos alunos.

Nós começamos esse período de aulas remotas com os 24 interessados em participar, mas, hoje estamos com apenas 12 alunos. Dentre estes, nove responderam ao questionário. Os dados quantitativos apontam que a idade varia entre 20 e 55 anos. Deste corpus, cinco se autodeclaram negros (pretos e pardos) e quatro brancos. Entre os que responderam, cinco possuem computador. Contudo, a maioria utiliza o celular como dispositivo principal. Em relação à divisão de equipamentos (computador, tablet, celular) nos quais as aulas são assistidas, cinco estudantes partilham com outros membros de sua residência. Por fim, sete possuem internet banda larga em suas casas.

No que tange aos aspectos qualitativos do questionário, as perguntas abertas objetivavam saber se os alunos tinham alguma atividade além das aulas do curso. Procurou-se saber também como está sendo a experiência das aulas remotas e como se pode melhorar a experiência. Por fim, a última pergunta era sobre o que tinha estimulado a busca pelo pré-vestibular e o que tinha mudado no período pandêmico.

A maioria das respostas indicou que os alunos conciliavam as aulas no pré-vestibular com o trabalho ou faziam outra atividade. Sobre como era a percepção deles das aulas, houve sugestões quanto ao tempo de aula e o pedido para que além da aula ao vivo, a gravação das aulas fosse disponibilizada. 

Além disso, os alunos relataram a dificuldade de se organizarem para participar das aulas, além do surgimento de novas dificuldades, como a rotina dos filhos e o fato de dividirem os dispositivos e a internet com outros membros da casa. Os relatos eram de que todos procuraram o núcleo para estudar para o Enem e o pré-vestibular possibilita isso por ser gratuito; outros ainda relataram que poder voltar a estudar era o que os estimulava.

Considerações finais

Neste boletim, procurei dar uma dimensão de como a educação popular foi afetada pela Covid-19. O desvelamento e o acirramento das desigualdades tem sido marca do período pandêmico. No que tange à situação dos núcleos da Educafro Rio e dos demais pré-vestibulares sociais do Rio de Janeiro, foi observada uma enorme evasão dos alunos. Os principais motivos foram: a nova dinâmica nas residências, a baixa disponibilidade de dispositivos e a internet de baixa qualidade.

Por fim, os núcleos de educação popular se mantiveram, ao longo do tempo, como espaços de resistência contra a reprodução das formas de desigualdade e violência que moldam a vida social contemporânea. A ausência de um debate para definir protocolos pedagógicos que ajudem professores e alunos a planejarem o ano letivo faz com que a Covid-19 mine os espaços destinados à educação popular e antirracista.

Felipe Bellido Quarti Cruz é doutorando do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais (PPGCIS) da PUC-Rio e Vice-coordenador da Educafro - Regional Rio de Janeiro.

Notas:

1. A Educafro é uma associação do Movimento Negro fundada em 1987, e como tal, ultrapassa a condição de rede de pré-vestibulares, sendo esta apenas uma de suas frentes de atuação.

2. A Educafro assumiu uma parceria com uma plataforma de cursinho, o que possibilitou que nossos alunos pudessem se preparar para o Enem e outros concursos, sem sair de casa. Para mais informações acessar: <https://www.educafro.org.br/site/descomplica/>.

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Este texto é parte de uma série de boletins sequenciais sobre a questão étnico-racial em tempos de crise que está sendo publicada ao longo das próximas semanas. Trata-se de uma ação conjunta que reúne a Associação Nacional de Pós-Graduação em Ciências Sociais (ANPOCS), a Sociedade Brasileira de Sociologia (SBS), a Associação Brasileira de Antropologia (ABA), a Associação Brasileira de Ciência Política (ABCP) e a Associação dos Cientistas Sociais da Religião do Mercosul (ACSRM). Nos canais oficiais dessas associações estamos circulando textos curtos, que apresentam trabalhos que refletiram sobre epidemias. Esse é um esforço para continuar dando visibilidade ao que produzimos e também de afirmar a relevância dessas ciências para o enfrentamento da crise que estamos atravessando.

A publicação deste boletim também conta com o apoio da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC/SC), da Associação Nacional de Pós-Graduação em Geografia (ANPEGE), da Associação Nacional de Pós-Graduação em História (ANPUH), da Associação Nacional de Pós graduação e Pesquisa em Letras e Linguística (Anpoll) e da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Planejamento Urbano e Regional (Anpur).

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