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Boletim Especial n. 45 - 27/01/2021



No Boletim n. 45, Elisa Hipólito do Espírito Santo (USP) a partir de dados e de relatos de imigrantes, discorre como o racismo e a xenofobia influenciam os deslocamentos sociais e as vivências de povos de origem africana no Brasil. Frente à pandemia da Covid-19, a autora evidencia que esta discriminação afeta a busca pelos serviços públicos de saúde por parte destes grupos sociais, que por temor desencorajam-se a procurar tratamento médico, cenário que reafirma a articulação dos marcadores sociais da diferença - sexualidade, religião e, sobretudo, raça - como reprodutores da desigualdade e da exclusão.

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Xenofobia e racismo: as relações raciais e a crise do novo coronavírus


Por Elisa Hipólito do Espírito Santo

Foto: Imigrantes durante workshop sobre mercado de trabalho em abrigo provisório na zona leste de São Paulo. Foto por Alethea Rodrigues. Disponível em: https://migramundo.com/em-live-imigrantes-apontam-mercado-de-trabalho-e-xenofobia-como-desafios-principais-no-brasil/. Acesso em 11/11/2020.


Eu tava trabalhando na cozinha. É puxado, o brasileiro ficava falando: êh! Pega aqui, africana, pega aqui. Eu falei não, vou sair daqui. Eles tratam mal africano, é racista... é racista que fala né?[1]

Nos dias seguintes a 17 de maio de 2020, a hashtag #soujoaomanuel foi utilizada amplamente nas redes sociais. Os mais desavisados poderiam cogitar ser mais um caso de genocídio incentivado pela necropolítica, que insistentemente tomba corpos negros. Mas tratava-se do assassinato de João Manuel, um angolano frentista que foi morto esfaqueado na região leste da cidade de São Paulo. Duas testemunhas, que eram também imigrantes, tentaram evitar a agressão e foram feridas. O crime aconteceu após uma discussão em que o assassino, homem brasileiro, por meio de insultos xenofóbicos e racistas, criticava a medida governamental de pagamento do auxílio emergencial para imigrantes. “Eu queria defender o meu irmão. Foi racista, ele deixou claro que foi racismo, porque ele estava a falar que ia matar meu irmão, mas dando risada, tipo como se fosse matar um animal”, relatou o outro imigrante, que tentou impedir o ato, segundo reportagem veiculada[2].

Esse caso do assassinato de João Manuel torna perceptível o que a minha pesquisa, em andamento, com mulheres imigrantes de países africanos, no centro de São Paulo, apresenta: os marcadores sociais da diferença e da desigualdade de raça e de gênero influenciam não só o deslocamento, mas também as vivências da população imigrante no Brasil. 

A situação se agrava nos momentos de crise – além da crise sanitária, há a crise financeira intensificada pelo aumento do desemprego – reforçando as desigualdades estruturais e históricas que afetam certos segmentos da sociedade. A Covid-19 teve seus primeiros casos identificados na província de Wuhan, na China, e se espalhou mundialmente. No Brasil e nos EUA, graças a uma disputa geopolítica, ela recebeu, de alguns indivíduos, a nomeação racista de “doença da China”, fazendo com que a doença parecesse ter como causa a etnicidade, resultando em estigmatizações, insultos e agressões a imigrantes e pessoas de ascendência chinesa, tidos como os vetores e culpados pela atual situação sanitária. O racismo e a xenofobia, a partir daí, têm se tornado, ainda mais, escancarados.

Baeninger et al. (2020)[3] entrevistaram 2.475 imigrantes de diversas nacionalidades, em 22 estados brasileiros durante os meses de maio e julho de 2020, objetivando analisar os impactos da pandemia para essa população, e chegaram a importantes constatações acerca da vulnerabilidade desse grupo. Segundo as autoras, ao serem questionados sobre quais as suas principais preocupações na pandemia, os imigrantes venezuelanos e haitianos, grupos que tiveram grandes fluxos para o país, nos últimos anos, responderam que eram a fome, o desemprego e a discriminação. O interessante é perceber a grande diferença relacionada à discriminação:70% dos haitianos relataram o medo de sofrerem algum tipo de violência, enquanto 44% dos venezuelanos tinham esse receio, destacando-se a vulnerabilidade motivada pela raça a que os imigrantes haitianos estão expostos. Tendo em vista o nosso contexto de classificação racial e o fato de que a relevância das migrações sul-sul apontam para uma nova composição étnica e racial da imigração para o Brasil, formada majoritariamente por não brancos (BAENINGER, 2017)[4], não só o status migratório dessas pessoas em deslocamento influenciam as suas experiências e privações, há também uma articulação com outros marcadores sociais, como a sexualidade, a religião e, sobretudo, a raça.

O assassinato de João Manuel gerou mobilização de grupos imigrantes da cidade e da Defensoria Pública da União – DPU, que repudiou o crime e afirmou que o auxílio emergencial é aplicável a imigrantes que se encaixam nos critérios sociais estabelecidos pelo governo. Houve uma parceria entre a DPU e o Ministério da Cidadaniacom a finalidade de agilizar a análise documental ao produzir um ofício informando às agências da Caixa Econômica Federal que documentos emitidos pelo país de origem do imigrante, ainda que vencidos, são válidos como identificação para o saque do auxílio. 

Entretanto, muitos imigrantes que possuíam o cadastro aprovado continuam com medo de sofrer xenofobia e racismo nas filas para o saque do auxílio. Além disso, essas violências ainda desencorajam aqueles que estão doentes a procurarem tratamento médico. O estigma e o medo da violência física e verbal fazem com que essa população tema toda a sociedade, principalmente os serviços de saúde, o que é completamente contraproducente diante do alto nível de contágio do novo coronavírus. A advogada de direitos humanos do Fórum Internacional Fronteiras Cruzadas na Universidade de São Paulo, Karina Quintanilha, afirmou na mesma reportagem que,

Antes da pandemia, pesquisas já mostravam que são frequentes as denúncias de racismo e xenofobia nos serviços públicos e no ambiente de trabalho. Isso agora está se intensificando, tem relatos desse tipo de discriminação também nos serviços de saúde, mas ainda é uma situação muito invisibilizada.

Situação semelhante aconteceu durante a pandemia do Ebola nos EUA, quando vários imigrantes africanos, independentemente do país de origem e de quanto tempo estavam no país, foram agredidos, humilhados e tiveram seus negócios boicotados. Cenário que reafirma a articulação dos marcadores sociais da diferença e da desigualdade, produzindo e reproduzindo diferentes experimentações, formas de marginalização e exclusão no ato de migrar e de vivenciar a pandemia. No episódio relatado, e também nas violências vivenciadas por imigrantes e ascendentes de chineses, durante a pandemia, o marcador de nacionalidade e de raça se tornam a personificação e um marco referencial utilizado como o possível motivador da atual conjuntura sanitária e econômica, servindo como justificativa para as agressões realizadas.

Elisa Hipólito do Espírito Santo é mestranda no Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da Universidade de São Paulo e pesquisadora do Núcleo de Estudos sobre Marcadores Sociais da Diferença do Departamento de Antropologia da USP (NUMAS/USP). Desenvolve pesquisa sobre deslocamentos e os marcadores sociais da diferença de raça, gênero e nacionalidade.

Notas:

1Trecho da entrevista que realizei em novembro de 2019 com uma de minhas interlocutoras de campo, uma mulher angolana imigrante na cidade de São Paulo.

2. Link da reportagem https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/noticia/2020/05/19/angolano-morre-esfaqueado-na-zona-leste-de-sp-e-2-ficam-feridos-imigrantes-deixam-suas-casas-em-itaquera-por-medo-de-xenofobia.ghtml (Acessada em 03/11/2020).

3. BAENINGER, Rosana. et al. Impactos da pandemia de Covid-19 nas migrações internacionais no Brasil – Resultados de Pesquisa. Campinas, SP: Núcleo de Estudos de População “Elza Berquó” – NEPO/UNICAMP, 2020.

4. BAENINGER, Rosana. Cenários das migrações Internacionais no Brasil. In: BERQUÓ, Elza (org.) Demografia na Unicamp: um olhar sobre a produção do NEPO. Campinas, SP: Editora da Unicamp, 2017.

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Este texto é parte de uma série de boletins sequenciais sobre a questão étnico-racial em tempos de crise que está sendo publicada ao longo das próximas semanas. Trata-se de uma ação conjunta que reúne a Associação Nacional de Pós-Graduação em Ciências Sociais (ANPOCS), a Sociedade Brasileira de Sociologia (SBS), a Associação Brasileira de Antropologia (ABA), a Associação Brasileira de Ciência Política (ABCP) e a Associação dos Cientistas Sociais da Religião do Mercosul (ACSRM). Nos canais oficiais dessas associações estamos circulando textos curtos, que apresentam trabalhos que refletiram sobre epidemias. Esse é um esforço para continuar dando visibilidade ao que produzimos e também de afirmar a relevância dessas ciências para o enfrentamento da crise que estamos atravessando.

A publicação deste boletim também conta com o apoio da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC/SC), da Associação Nacional de Pós-Graduação em Geografia (ANPEGE), da Associação Nacional de Pós-Graduação em História (ANPUH), da Associação Nacional de Pós graduação e Pesquisa em Letras e Linguística (Anpoll) e da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Planejamento Urbano e Regional (Anpur).

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