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A Construção da Ciência no Brasil e a SBPC

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Autor: Ana Maria Fernandes
ISBN:
Editora: ANPOCS, Editora Universidade de Brasília, CNPq
Edição: 1990
Número de páginas: 292

Sinopse: A tese de Ana Maria Fernandes é muito minuciosa e bem documentada, abordando em seu texto temas de grande relevância, como a mudança na "qualidade orgânica" dos cientistas no Brasil, a concepção da SBPC sobre a ciência, as relações entre ciência e Estado, mudanças no Estado e na sociedade no Brasil após 1964, a transição de 1973 a 1976 — com referência especial às reuniões anuais desse período —, as alterações entre 1977 e 1980 e a definição do "novo caminho" — independência da SBPC e participação dos cientistas no processo de tomada de decisão...

A autora analisa a formação, os objetivos, o papel e as tendências da SBPC, salientando que sua primeira campanha consistiu na defesa do cientista e da ciên­cia, assim como no combate ao poder político ilimitado e intervencionista.

Conseguiu a sociedade estabelecer sua autonomia perante a sociedade civil e o Estado, apesar de ser amplamente amparada financeiramente por este.

A seguir, Ana Maria examina dois casos extremos de intervenção militar em instituições acadêmicas (a crise da Universidade de Brasília e o chamado "massacre de Manguinhos") e a condenação da SBPC ao regime repressivo, ao mesmo tempo que registra o entusiasmo desta pelo aumento do orçamento federal para a ciência e pela instituição da política científica. Salienta ainda que a entrada das ciências humanas na sociedade lhe trouxe mais amplo público e a levou a adotar papel mais crítico.

A terceira seção trata da quebra do que a autora chama de "período de colaboração" e do papel da SBPC no processo de democratização nacional, quando ela se transforma em "importante fórum de debate". Nesse período a organização realçou sua independência em relação ao Estado e robusteceu suas ligações com a sociedade civil. Ao mesmo tempo, surgi­ram tentativas para definir um novo papel para a SBPC como associação profissional e política.

Como conclusão geral, a autora afirma que o fortalecimento do papel da SBPC não assegurou, todavia, a solução dos problemas da ciência e dos cientistas no Brasil, dadas as características do país e a exclusão dos cientistas do processo de to­mada de decisão...
Em suma, o trabalho da professora Fernandes constitui preciosa contribuição à compreensão da ciência no Brasil e ao papel que a SBPC tem desempenhado.

O capítulo final, de conclusões, é visão abrangente e ponderada dessa realidade, refletindo com precisão as crises que a sociedade enfrentou em sua luta pelo progresso da ciência e pela democratização do país.

Cabe-nos acrescentar que, nessa trajetória, muito se conquistou no que se refere à mobilização dos cientistas e a sua influência em muitas decisões políticas. Sua voz tem hoje muito maior ressonância nas classes dirigentes e no púbico.

José Reis
Artigo publicado originalmente na Folha de S. Paulo.