Logo boletim final
Boletim Especial n. 14 - 10/11/2020



No Boletim n. 14, Thiane de Nazaré Monteiro Neves Barros (UFBA) e Tamara da Silva Mesquita (UFPA) apresentam dados sobre como o ciberativismo contribuiu para minimizar os impactos da pandemia da Covid-19 nos estados do Amazonas e do Pará. Em meados do mês de maio, com o avanço da pandemia pelo Brasil, estes estados foram considerados pelo Ministério da Saúde como o novo epicentro da Covid-19 e, assim como em todo o país, foram pessoas de baixa renda e baixa escolaridade, sobretudo negras, as mais vitimadas.

________________________________________

Download do boletim em PDF

Redução de danos na Amazônia durante a pandemia de Covid-19


Por Thiane de Nazaré Monteiro Neves Barros e Tamara da Silva Mesquita

Foto: Campanha Fica no teu setor, do Projeto Telas em Movimento, periferias de Belém contra a Covid-19. Foto por Mário G. Neto, bairro do Guamá/ Belém. Disponível em <https://twitter.com/joycecursinoo/status/1242772601774190593/photo/1>, acesso em 08/11/2020.


Quando a pandemia da Covid-19 foi declarada no Brasil, alguns governos estaduais decidiram parar escolas, universidades, comércios, serviços públicos etc. Com isso, instauraram-se o caos, o medo e a crise, manifestas nas preocupações de muitos grupos e entidades de movimentos sociais em como garantir a manutenção de famílias em situação de pobreza: tanto as que ficaram sem renda, quanto as que seguiram no trabalho presencial – sem direito a home office – e que não tinham condições estruturais de lidar com os protocolos para evitar o contágio do novo coronavírus.

Essa incapacidade dava-se por três motivos principais: 1) a manipulação da informação pelo Governo Federal, uma vez que a principal liderança política do país tratava a pandemia como uma “gripezinha” e menosprezou a letalidade do vírus. Negacionista, conservadora, imatura, esta gestão que vive de confundir a população, deixou-a sem saber no que acreditar e como proceder sobre a doença; 2) o racismo e as condições de trabalho e renda: os principais fatores que ocasionam os abismos socioeconômicos no Brasil e que trazem a reboque uma série de outras injustiças e a não garantia de direitos, como o saneamento básico, a condição de moradia, o direito de comer, de se informar e de circular pela cidade; 3) o acesso aos protocolos de segurança, pois uma vez identificadas as formas de redução de riscos de contágio como o uso sistemático do álcool 70º e de máscaras para cobrir nariz e boca, os preços desses itens subiram mais de 200%, impossibilitando sua aquisição pela população de baixa renda.

Vimos a tragédia no estado do Amazonas e em seguida no estado do Pará, que chegou a ser considerado pelo ex-Ministro Henrique Mandetta como o novo epicentro da pandemia no Brasil (MOREIRA, 2020). A classe média saindo de Belém em helicópteros e as populações em condição de pobreza sem condições sequer de disputar leitos. Com isso, a Amazônia nortista concentra os maiores coeficientes de incidência e mortalidade. Há que se observar que ainda que o Covid-19 atinja indistintamente pessoas de diferentes classes, gerações, gêneros, raças etc., quem mais morre são pessoas negras, de baixas renda e escolaridade. (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2020).

Com a impossibilidade de manter os contatos físicos como antes, grupos lançaram mão de recursos do ciberativismo como estratégia de comunicação e intervenção para que o distanciamento físico não virasse isolamento social, sobretudo em localidades já atravessadas pelo distanciamento geográfico. Apesar de as condições de internet não serem as mais simpáticas na Amazônia e o acesso ser basicamente por dados móveis, ainda assim, dezenas de campanhas, do Tocantins ao Acre, foram bem-sucedidas. A internet foi uma aliada para denunciar as violências do governo e para multiplicar ações de redução de danos entre as comunidades.

No site mapacolaborativo.org.br identificamos quase 200 ações de suporte às famílias e comunidades da região amazônica, organizadas por coletivos e movimentos, entidades religiosas, universidades e redes que foram criadas para atuação durante a pandemia. Mas existem pelo menos mais uma dezena de ações não registradas no site. Os grupos trabalharam para levar comida, conhecimento, esperança ou mesmo a fé em Deus e na ciência. Sendo, nestes últimos casos, multiplicadores das informações científicas.

Além da internet, as ações também foram possíveis porque as redes usaram a tecnologia mais viável para situações de tamanho caos: o recado. Foram as experiências de ação em bases, as estratégias de comunicação já consolidadas que possibilitaram que essas potências comunicativas cumprissem suas tarefas de levar conhecimento e de promover redução de danos.

As ações começaram com a assistência para obter o auxílio emergencial, orientando as pessoas sobre como acessá-lo (ler as regras, baixar o aplicativo, lidar com a burocracia). Foram inúmeras as mensagens sobre a necessidade de ficar em casa e sobre o uso de máscaras. Houve também atenção à infância, pois ter criança em casa 24 horas do dia, 7 dias por semana, sem que essa criança possa jogar bola na rua, ir ao parque ou conversar com a coleguinha da casa ao lado, poderia levar a infância ao colapso. Então alguns grupos buscaram garantir redução de danos para a saúde mental das crianças. Tudo para que essas famílias não fossem reduzidas às piores experiências de desumanização.

Acreditamos que o que esses grupos estão propondo é maior do que o assistencialismo. Eles discutem caminhos para um futuro amparado no bem viver como projeto de ruptura com o modelo capitalista. Não se trata, pois, de uma adequação a esse modelo de bem-estar elitizado, mas de busca por oportunidades de se respirar livremente.

Thiane de Nazaré Monteiro Neves é mestra em Ciências da Comunicação pelo Programa de Comunicação, Cultura e Amazônia da Universidade Federal do Pará (PPGCOM-UFPA). Doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Cultura Contemporâneas da Universidade Federal da Bahia (PósCom-UFBA), thiane.nb@gmail.com.

Tamara da Silva Mesquita é pós-graduanda na Especialização em Análises das Teorias de Gênero na América Latina da Universidade Federal do Pará, tamaramesquita95@gmail.com.

REFERÊNCIAS:

MINISTÉRIO DA SAÚDE. Boletim Epidemiológico Especial. Disponível em https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/boletins-epidemiologicos-1/set/boletim-epidemiologico-covid-30.pdf. Acessado em 27 de setembro de 2020.

MOREIRA, Camila. Pará é o novo epicentro da covid-19 no país, diz ex-ministro Mandetta. Disponível em https://www.oliberal.com/para/para-e-o-novo-epicentro-da-covid-19-no-pais-diz-ex-ministro-mandetta-1.267562. Acessado em 27 de setembro de 2020.

________________________________________


Este texto é parte de uma série de boletins sequenciais sobre a questão étnico-racial em tempos de crise que está sendo publicada ao longo das próximas semanas. Trata-se de uma ação conjunta que reúne a Associação Nacional de Pós-Graduação em Ciências Sociais (ANPOCS), a Sociedade Brasileira de Sociologia (SBS), a Associação Brasileira de Antropologia (ABA), a Associação Brasileira de Ciência Política (ABCP) e a Associação dos Cientistas Sociais da Religião do Mercosul (ACSRM). Nos canais oficiais dessas associações estamos circulando textos curtos, que apresentam trabalhos que refletiram sobre epidemias. Esse é um esforço para continuar dando visibilidade ao que produzimos e também de afirmar a relevância dessas ciências para o enfrentamento da crise que estamos atravessando.

A publicação deste boletim também conta com o apoio da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC/SC), da Associação Nacional de Pós-Graduação em Geografia (ANPEGE), da Associação Nacional de Pós-Graduação em História (ANPUH), da Associação Nacional de Pós graduação e Pesquisa em Letras e Linguística (Anpoll) e da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Planejamento Urbano e Regional (Anpur).

Acompanhe e compartilhe!