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Boletim Especial n. 15 - 13/11/2020



No Boletim n. 15, Viviane Gonçalves Freitas (UFMG) discorre sobre iniciativas que articularam mulheres negras em torno de debates e projetos para a participação ativa no processo das eleições municipais de 2020, em especial como candidatas a posições no Legislativo e Executivo. A potencialização de sementes espalhadas por referências como Marielle Franco foi pauta para a conexão digital entre incentivos, apoios, recursos e arcabouços teóricos em prol de projetos em busca de um fazer diferente na política representativa.

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As candidaturas de mulheres negras em tempos de pandemia: usos das tecnologias e redes sociais como espaço de formação


Por Viviane Gonçalves Freitas

Fonte: <http://euvotoemnegra.com.br>, acesso em 12 de novembro de 2020..


Em um ano eleitoral atípico, com período de campanha menor e contatos com eleitoras/es feitos, primordialmente, de modo virtual, ambos devido à pandemia da Covid-19, segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o percentual de mulheres e negros é superior ao de pleitos anteriores. Em 2016, as mulheres somavam 31,9% das candidaturas; em 2020, chegam a 33,4%. Já os negros, na soma de pardos e pretos, subiram de 47,76% (2016) para 49,50%, nas eleições municipais deste ano (TSE, 2020; CATRACA LIVRE, 2020).

Cabe lembrar que, nas eleições de 2018, embora tenha ocorrido um aumento no número de mulheres na Câmara dos Deputados, elas ainda representam apenas 15%; e, no Senado, são 14,8% (AGÊNCIA SENADO, 2019). Também ressaltamos que, naquele pleito, o número de eleitas deputadas federais negras passou de 10 para 13, e de brancas foi de 41 para 63; além da eleição da primeira mulher indígena para o Congresso Nacional (ASSIS; FERRARI; LEÃO; 2018).

Com esses números em mente, começo a falar especificamente do ponto que me motivou a pensar sobre o tema deste artigo: a formação política de mulheres negras para as eleições municipais. Desde março, quando a quarentena foi iniciada no Brasil – e lá se vão cerca de oito meses de adaptações e reorganizações –, ainda buscamos respostas e caminhos para tantas mudanças que chegaram de surpresa. Muitas/os de nós já devem ter perdido a conta de quantas lives passaram por seus celulares ou computadores, seja como participantes ou audiência, seja de sua/seu artista favorita/o ou para reuniões, palestras e aulas. E não é possível desconsiderar como as desigualdades se apresentaram ainda mais profundas quando se compara o acesso a recursos educacionais para crianças, adolescentes e jovens, de todos os níveis de educação formal, das redes privada e pública.

É exatamente neste contexto de adaptações e tentando encontrar caminhos alternativos que nos levem a manter mais do que meros ares democráticos no Brasil que surgiram algumas iniciativas de formação para pessoas interessadas em concorrer nas eleições municipais de 2020. Friso que não é sobre a reserva do percentual do fundo partidário que abordarei – o que me parece uma iniciativa de significativa relevância, por sinal. O que chama minha atenção hoje é uma oportunidade de a própria academia se repensar, transpor seus muros, ampliar seu olhar, aprender a ouvir mais, ao mesmo tempo em que pode receber de volta muito mais conhecimento do que imagina.

Em agosto, foi lançado o curso “Mulheres rumo ao poder”, no formato remoto, aberto e gratuito, voltado para mulheres candidatas ao Legislativo e ao Executivo. A iniciativa foi realizada por meio da parceria entre diversas instituições: Associação Brasileira de Ciência Política (ABCP), Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais (ANPOCS), FIOCRUZ Minas Gerais, Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre a Mulher (NEPEM/UFMG) e Grupo de Estudos Feministas em Política e Educação (GIRA/UFBA). Dividido em quatro módulos, as aulas, ministradas por docentes de diversas universidades brasileiras, abordaram a história dos feminismos e dos direitos das mulheres, partidos políticos, eleições e campanha política, além de apresentar depoimentos de deputadas federais quanto aos principais obstáculos que vêm enfrentando ao longo da carreira.

No mês seguinte, foi a vez do Programa de Pós-Graduação em Estudos Interdisciplinares sobre Mulheres, Gênero e Feminismo (PPGNEIM/UFBA) e do Conselho Estadual de Defesa dos Direitos da Mulher da Bahia (CDDM-BA) lançarem o “(Re)presente! Mais mulheres na política”, também remoto e gratuito, com material complementar para as participantes previamente inscritas. As oito aulas do curso, ministradas por professoras do PPGNEIM e de outras universidades, além de convidadas ativistas e parlamentares, enfocaram temáticas como trajetórias e desafios das mulheres negras, participação política das mulheres, financiamento eleitoral, mandatos coletivos e estratégias de marketing.

Além do formato online e do público principal ser as mulheres, ambas as iniciativas trazem um pouco da essência retratada no documentário Sementes: mulheres pretas no poder, dirigido por Éthel Oliveira e Júlia Mariano, lançado gratuitamente no Youtube no dia 7 de setembro. Mais do que a trajetória de seis candidatas negras no pleito de 2018, oriundas do Rio de Janeiro, o filme destaca que, naquela eleição, 4.398 mulheres negras se candidataram a cargos legislativos, o que representou um aumento de 93% de candidaturas autodeclaradas negras em comparação à eleição anterior.

Na outra ponta dessa mobilização, estão iniciativas como a campanha “Eu Voto em Negra”, que integra o Projeto Mulheres Negras e Democracia, com atuação no Nordeste do país. Desenvolvido pela Rede Mulheres e Democracia, o projeto realiza-se a partir da parceria entre diversas organizações: Casa da Mulher do Nordeste (CMN); Centro das Mulheres do Cabo (CMC); Movimento da Mulher Trabalhadora Rural do Nordeste (MMTR/NE); Rede de Mulheres Negras de Pernambuco, Rede de Mulheres Negras do Nordeste, além do apoio do Fundo de Mujeres del Sur. Seu objetivo é aumentar o número de mulheres negras, rurais e populares em espaços de poder, contribuindo para fortalecer campanhas que lutem pelos Direitos Humanos, por meio de perspectivas feministas e antirracistas, a fim de enfrentar os contextos de crise democrática no Brasil e na América Latina (EU VOTO EM NEGRA, 2020).

Entendo que essas articulações possam potencializar as sementes de Marielle Franco, por meio da oferta de incentivos, apoios, recursos e arcabouço teórico, unida à trajetória que cada uma dessas mulheres traz de luta, perseverança e capacidade para fazer diferente. Em meio a inúmeras estranhas novidades pandêmicas, fiquemos com os ensinamentos de Conceição Evaristo e Angela Davis, e sintamos 2020 como um “tempo de formar novos quilombos, em qualquer lugar que estejamos”, pois “a liberdade é uma luta constante”.

Viviane Gonçalves Freitas é jornalista, doutora em Ciência Política (UnB), com pós-doutorado em Ciência Política (UFMG). Pesquisadora associada à Rede de Pesquisas em Feminismos e Política e ao Margem – Grupo de Pesquisa em Democracia e Justiça (DCP/UFMG). Membro do Comitê ANPOCS de Relações Raciais. E-mail: vivianegoncalvesfreitas@gmail.com.

REFERÊNCIAS:

AGÊNCIA SENADO. Minoria no Congresso, mulheres lutam por mais participação. Senado Notícias. 07 mar. 2019. Disponível em: <https://www12.senado.leg.br/noticias/materias/2019/03/07/minoria-no-congresso-mulheres-lutam-por-mais-participacao>. Acesso em: 11 out. 2020.

ASSIS, Carolina de; FERRARI, Marília; LEÃO, Natalia. Câmara dos Deputados terá menos homens brancos e mais mulheres brancas, negras e 1ª indígena em 2019. Gênero e Número. 8 out. 2018. Disponível em: <http://www.generonumero.media/camara-dos-deputados-tera-mais-mulheres-brancas-negras-e-indigena-e-menos-homens-brancos-em-2019/>. Acesso em: 11 out. 2020.

CURSO “Mulheres Rumo ao Poder”. Associação Brasileira de Ciência Política. 21 ago 2020. Disponível em: <https://cienciapolitica.org.br/noticias/2020/08/curso-mulheres-rumo-ao-poder>. Acesso em: 11 out. 2020.

DAVIS, Angela. A liberdade é uma luta constante. São Paulo: Boitempo, 2018.

EU VOTO EM NEGRA. Projeto Mulheres Negras e Democracia. Disponível em: <http://euvotoemnegra.com.br/#o-projeto>. Acesso em: 11 nov. 2020.

EVARISTO, Conceição. Tempo de nos aquilombar. Disponível em: <https://br.pinterest.com/pin/337066353363315708/>. Acesso em: 09 out. 2020.

MUDANDO a cara da política: curso para mulheres candidatas. Núcleo de Estudos Interdisciplinares sobre a Mulher. 14 set. 2020. Disponível em: <http://www.neim.ufba.br/wp/curso-para-mulheres-candidatas/>. Acesso em: 11 out. 2020.

REDAÇÃO. Eleições 2020: TSE aponta recorde de candidatos negros e mulheres. Catraca Livre. 28 set. 2020. Disponível em: <https://catracalivre.com.br/cidadania/eleicoes-2020-tse-aponta-recorde-de-candidatos-negros-e-mulheres/>. Acesso em: 11 out. 2020.

TRIBUNAL SUPERIOR ELEITORAL. Estatísticas eleitorais. Disponível em: <https://www.tse.jus.br/eleicoes/estatisticas/estatisticas-eleitorais>. Acesso em: 14 out. 2020.

SEMENTES: mulheres negras no poder. Belo Horizonte: Embaúba Filmes, 2020. (100 min): son., color.; (Nacional). Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=8vEcUORITC4>. Acesso em: 21 set. 2020.

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Este texto é parte de uma série de boletins sequenciais sobre a questão étnico-racial em tempos de crise que está sendo publicada ao longo das próximas semanas. Trata-se de uma ação conjunta que reúne a Associação Nacional de Pós-Graduação em Ciências Sociais (ANPOCS), a Sociedade Brasileira de Sociologia (SBS), a Associação Brasileira de Antropologia (ABA), a Associação Brasileira de Ciência Política (ABCP) e a Associação dos Cientistas Sociais da Religião do Mercosul (ACSRM). Nos canais oficiais dessas associações estamos circulando textos curtos, que apresentam trabalhos que refletiram sobre epidemias. Esse é um esforço para continuar dando visibilidade ao que produzimos e também de afirmar a relevância dessas ciências para o enfrentamento da crise que estamos atravessando.

A publicação deste boletim também conta com o apoio da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC/SC), da Associação Nacional de Pós-Graduação em Geografia (ANPEGE), da Associação Nacional de Pós-Graduação em História (ANPUH), da Associação Nacional de Pós graduação e Pesquisa em Letras e Linguística (Anpoll) e da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Planejamento Urbano e Regional (Anpur).

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